Ações do Tribunal
por Lafaiete Ribeiro de Campos
Do nada, quem sabe até aos poucos, autores se privam de seus delírios do sentir, tomados de quietude longa, deixam de sonhar incêndios, de deter o tempo, sem sorte, agora, por eles tudo passa.
É certo que essa farta ânsia de antes, que os desassossegava do pé à pegada, aconteceu antes de toda tinta, de toda caneta e de todo papel, mas não antes de toda mente nem de toda pessoa tida, lida.
As letras são meros relatos de coisas reais, até vividas, tal qual aquelas que acontecem no caos de um rápido toque ou no choque de um talho firme, verso precisa de pulso.
Reveja, o menestrel é aquele que, quando percebido, acelera as circunstâncias, desde as mais miúdas, daquelas que nem parecem ter existido, as que nos são infindáveis ocasiões repisadas.
E assim, a poesia tem um que das coisas que nos cercam, quando precisamos que nos cerquem, com amor ou não, e com menos razão.
Além do poeta, existe o poema, e esse, existido, torna-se maior que aquele, pois não vai ir-se tão fácil daqui, será capturado, ainda que em fragmentos, por quem vê em poesia, sem deixar de perceber.
Como na matemática subjetiva das canções, quando sabemos o ritmo tão sutilmente, que cantarolamos sem fazer uma única conta, tangendo mais que som.
Então, capaz ser isso a poesia, saber a música pelo seu mais breve arranjo, ler mais do que está escrito em um papel, ler escrito na gente mesmo, sem ninguém sequer saber que lemos, assim:
Foi quando minha boca se juntou ao teu sabor, inteira minha língua emudece das palavras e mareou devagar por entre a cheia de teus lábios, que, agora oscilantes, não se cansam de ser tudo que queriam ser.
Sem deixar de te seguir, submergi nas encostas de teu céu oleado, eviscerando cada ideia tua, em cada ideia minha, delirando mais, dali em diante.
Em afazeres, revisitei este mundo, em busca de fôlego e, talvez, de um punhado de terra firme, havia nevoeiros pairando inquietos sobre minha decência, e o farol que me dera, acendia a desfaçatez de meus sentidos, os indícios de esperança e a sorte de outra vez perceber.